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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Igreja São Daniel Profeta - Um Niemeyer na favela


Igreja projetada por Oscar Niemeyer, foi inaugurada em 1960. Com pinturas da via sacra do pintor fluminense Alberto da Veiga Guinard que faleceu dois anos depois. 
Foi tombada por decreto municipal em 1998, junto com outras obras do arquiteto. 
É tombada também pelo Iphan.
Na foto, podemos ver os preparativos para a inauguração da Igreja.
Ela fica no Parque São José, Manguinhos (de acordo com o site da prefeitura e site da Arquediocese do Rio).
Fonte: http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema:444
 

Um Niemeyer na Favela: Igreja São Daniel, em Manguinhos, está abandonada

 

Violência e falta de atenção do Estado colaboraram com deterioração e sumiço de obras de arte.
 
Fotos: Vitor Silva – Jornal do Brasil e acervo CPDoc JB

Um dos primeiros projetos de Oscar Niemeyer, falecido na semana passada, em uma favela, a Igreja de São Daniel Profeta, ainda que tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), é mais uma obra do famoso arquiteto que há anos está abandonada.
Inaugurada em 1960 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, a Capela, que fica no bairro São José Operário, na Comunidade de Manguinhos, Zona Norte do Rio, deteriora-se há tempos. Niemeyer, porém, já não citava a igreja entre seus projetos de templos religiosos, deixando-a de fora, inclusive, do livro “Igrejas de Oscar Niemeyer”, lançado em agosto de 2011 pela Editora Nosso Caminho, como informou o Jornal do Brasil na reportagem “As catedrais do Comunista”.



Moradores já se queixavam em 1967 – um ano após o tombamento da capela – do seu problema de infiltração, instalação elétrica, umidade, danos nos pisos, infestação de cupins e a degradação dos 14 quadros da Via Sacrapintada por Guignard, uma verdadeira obra de arte, como publicado

Abandono pelo estado

O projeto sofreu modificações. Afinal, se hoje a Igreja continua de pé, foi por conta da iniciativa dos próprios moradores que há anos cobram providências pela manutenção do prédio histórico. A única – e pequena – intervenção para conservá-la partiu dos moradores de Manguinhos. A conselheira de Saúde e Meio Ambiente, bolsista da Fiocruz, Geralda da Paz, de 52 anos, há 32 na comunidade, expôs as dificuldades: “Durante muito tempo, as missas eram celebradas debaixo de sol ou de chuva, já que tudo estava destruído. Depois de mais de 15 anos tentando uma intervenção do Inepac, desistimos e, com muito custo, conseguimos fechar a Igreja com esses tijolinhos. O piso é um horror. Nós improvisamos. Os idosos tropeçam bastante. Além disso, os bancos estão quebrados, o som é horrível e temos ventiladores estragados”, contou ela.



Desde novembro de 2010, quando representante dos moradores se reuniu com a diretora do Departamento do Patrimônio Cultural e Natural do Inepac, Liana Carneiro Monteiro e  pesquisadores da Fiocruz, que se prometeu conseguir recursos para a reforma do templo. O dinheiro, porém, ainda não apareceu:
“A igreja é amada e esse é o grande objetivo de um bem cultural. Como não temos recursos suficientes para as mais de duas mil edificações tombadas no Estado do Rio, nos comprometemos a ajudar na construção de um projeto de conservação e a buscar recursos para as obras”, disse Liana.

Traficantes impunham suas leis

Cercada atualmente por várias favelas, a igreja foi erguida numa época em que Manguinhos ainda era pouco habitada. No entanto, a criminalidade e o tráfico se apoderaram do local, fazendo com que a obra do famoso arquiteto fosse alvo constante dos bandidos: “Isso aqui está abandonado pelas autoridades. Não temos ajuda de ninguém, mas fazemos o que está ao nosso alcance para manter a igreja. Hoje estamos em paz. Porém, com a entrada de pessoas de fora e da violência em Manguinhos, a capela já foi depósito de defunto, esconderijo de ‘bagulho’ e lugar de ‘cracudo’”, disse um morador da comunidade.
Como a maioria dos desenhos de Oscar, a capela tem formato circular. O fato curioso é que vista de cima ela lembra uma hóstia. Feita toda de concreto armado, com capacidade para 50 pessoas, ela possui 15 metros de diâmetro e 3,2 m de altura. Originalmente o projeto arquitetônico era cercado por vidraças trazidas da Suíça.
Os tiroteios e ataques violentos os despedaçaram. E, sem dinheiro para substituir vidros franceses ou brasileiros, os moradores colocaram, no lugar deles, tijolos vazados. “Enquanto o padre aceitou o que aquela ‘turma’ queria e fazia, destruindo o lugar, tudo bem, mas quando ele se queixou de que a igreja não servia para o que eles andavam fazendo, aí é que eles acabaram com tudo mesmo”, disse uma antiga residente da região.
A igreja, que pertence à Paróquia Santa Bernadete, atualmente tem cerimônias comandadas pelo padre Geraldo José Natalino, como missas aos domingos, além de aulas de Catequese, Crisma, algumas feitas na casa paroquial também construída pelos moradores na Rua Ceará, próxima dali.

Sumiços de obras de arte nunca foram explicados

Quatorze quadros da Via Sacra, pintados em 1961 por Alberto da Veiga Guignard, a pedido de Niemeyer, compunham a capela São Daniel Profeta, que possuía ainda a estátua de São Daniel, o profeta, feita em um molde criado por Aleijadinho, além de um jardim de Paulo Ataíde.
Conforme contam Geralda e sua vizinha, Maria da Penha, a estátua feita pelo molde do Aleijadinho foi levada pelo Estado e nunca mais se soube dela. Já os quadros, segundo atestam, foram retirados por uma suposta “madame” que também não os trouxe de volta.
De acordo com Geralda, as diversas enchentes pelas quais o bairro passou – e ainda passa -, destruíram a igreja e o seu jardim “Eu ainda não estava aqui quando retiraram os jardins, mas o que é dito é que foi necessário acabar com ele. Foram e continuam sendo muitas as enchentes. A água levou tudo”, explicou a moradora.
Maria da Penha, com 80 anos de idade, ainda sonha em ver melhoria na capela: “queremos construir um segundo andar no projeto e que trocassem o piso, que é muito ruim”. Entretanto, até hoje, de acordo com os moradores, nenhuma autoridade procurou a comunidade para dar apoio à igreja, sendo assim, nada foi feito.
O Jornal do Brasil contatou a assessoria da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, órgão responsável pelo Inepac, para dar conta do sumiço das obras de arte e do compromisso firmado em 2010 de “ajudar na construção de um projeto de conservação e a buscar recursos para as obras”. Em resposta, “o Inepac informa que continua tentando viabilizar os recursos e que agora, com a pacificação e as intervenções do PAC na área, está com esperança renovada”. Por Íris Marini

Fonte Jornal do Brasil de 14 de dezembro de 2012

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